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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Poeta português, natural de Sines. Al Berto frequentou diversos cursos de artes plásticas, em Portugal e em Bruxelas, onde se exilou em 1967. A partir de 1971 dedicou-se exclusivamente à literatura. Estreou-se com o título À Procura do Vento no Jardim de Agosto (1977). A sua poesia retomou, de algum modo, a herança surrealista, fundindo o real e o imaginário. Está presente, frequentemente, uma particular atenção ao quotidiano como lugar de objectos e de pessoas, de passagem e de permanência, de ligação entre um tempo histórico e um tempo individual. Por vezes, os seus textos apresentam um carácter fragmentário, numa ambiguidade entre a poesia e a prosa (Lunário, 1988; e O Anjo Mudo, 1993).
A sua obra poética engloba Trabalhos do Olhar (1982), Salsugem (1984), O Medo/Trabalho Poético, 1976-1986 (prémio de poesia de 1987 do Pen Club), O Livro dos Regressos (1989), A Secreta Vida das Imagens (1991), Luminoso Afogado (1995) e Horto de Incêndio (1997). 



quarta-feira, 27 de abril de 2011

A POESIA DE HELENA KOLODY: BUSCA DO ESSENCIAL

A inquietação é um dos eixos temáticos da poesia de Helena Kolody, visto como questionamento da linguagem e como uma solicitação original da consciência; uma agitação interior do sujeito, voltando-se para si-mesmo. Assim, ele se vê forçado "a inquirir os sinais de sua origem e transcendência, procurando na existência o sentido da vida", tal como afirma o filósofo Lavigne3. O poeta - "instaurador de sentido nos signos", no dizer de Esteban4, - é um ser em constante busca, deixando transparecer no poema sua inquietação e questionamentos. Em se tratando da questão da brevidade da vida, a poesia é o sinal do ser humano e seu testemunho perante o futuro. Na modernidade, segundo Paz, "o poema assume a forma da interrogação. Não é o homem que pergunta: a linguagem nos interroga"5. 
No itinerário poético de Helena Kolody, poeta da modernidade, evidenciam-se certas temáticas constantes, dentre as quais, a questão da brevidade da existência, a inquietação do poeta em relação à vida, ora a exaltação intensa da vida ora o desencanto. Também, percebe-se a temática do amor, do desejo de realização, da questão da vida e da morte, da solidão e busca de sentido para a existência. Em sua poesia, a vertente da religiosidade - a nostalgia da totalidade, a aspiração ao absoluto ("Tu", "Senhor", "Deus") - aponta para o desejo de um mundo transcendente. A questão da brevidade da vida e transcendência ficam evidentes no poema Mergulho6. O sujeito lírico revela-se inquieto, dividido entre o plano terreno e o espiritual: 
Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude (p. 70). 
No texto, percebe-se uma busca do eu-lírico em relação ao plano espiritual. O silêncio está associado à condição de solidão, pois o poeta, ser solitário e solidário, é capaz de dar sentido à vida. Entre as limitações próprias da condição da vida no plano físico e no plano espiritual, há o espaço intermediário, ou seja, o momento presente, no qual o poeta almeja mergulhar. Na interiorização do instante e despojamento, o eu-lírico constata que através de seu canto é quase possível preencher o vazio existencial. 
O tanka Sabedoria mostra a temática do efêmero, da brevidade da vida, do tempo e da saudade. No poema, salientam-se o exercício lúdico, as pausas dos versos, as ligações dos segmentos frasais e o conteúdo das recordações do sujeito lírico, que inquieta-se perante a vida: 

Tudo o tempo leva. 
A própria vida não dura. 
Com sabedoria, 
colhe a alegria de agora 
para a saudade futura (p. 29). 
Há uma perfeita relação semântica entre os versos do poema, mostrando que a vida é finita como as coisas que passam. O texto aponta para uma questão essencial: o ser humano tem um tempo a cumprir na existência. Por isso, a necessidade de se viver intensamente o presente, ou seja, o carpe diem é a tônica que movimenta o poema e remete para a necessidade de se buscar com sabedoria a alegria de agora tendo em vista a saudade futura. 
O poema Queixa apresenta o inconformismo em relação ao sofrimento, à angústia e à tristeza, por parte do sujeito lírico que se questiona: 

Tu, Senhor, que repartes os destinos: 
Por que me deste o árido quinhão 
De sonho, de tristeza e solidão? (p. 196) 
Os versos são marcados por um lirismo terno. No último verso do poema, os três signos: sonho, tristeza e solidão denotam a introspecção do sujeito lírico, que se sente inquieto perante a vida. As enumerações contribuem para a manutenção do ritmo do poema. O tom de indagação que direciona o texto mostra um conflito entre o eu e o mundo circundante. O questionamento da linguagem pode estar relacionado à consciência tensa, inquieta do eu poético, em constante interrogação. 
No haicai intitulado Os tristes, a inquietação do sujeito lírico enquanto questionamento fica evidente: 

Em seus caramujos, 
os tristes sonham silêncios. 
Que ausência os habita? (p. 26). 
São versos marcados por um sentimento melancólico. Salienta-se a temática da solidão, pois em meio à ausência e silêncios, os tristes sonham. A imagem do caramujo remete à idéia de isolamento e introspecção. No verso final, destaca-se a indagação do sujeito lírico. Em Emblema, poema composto por três versos, a temática do sofrimento e da religiosidade aparecem de forma nítida, em que o eu-lírico salienta sua inquietação: "A fogo imprimiste, Senhor,/ Na carne de meu coração/ A tua insígnia de dor" (p. 195). São versos que revelam que a dor e o sofrimento são inseparáveis da vida. A religiosidade e o amor se fazem presentes no poema Prece, em que o sujeito lírico suplica: 

Concede-me, Senhor, a graça de ser boa, 
De ser o coração singelo que perdoa, 
A solícita mão que espalha, sem medidas, 
Estrelas pela noite escura de outras vidas 
E tira d alma alheia o espinho que magoa (p. 217). 
No texto, o amor é forma divinizada de oferenda, de desejo de partilha com os outros. A linguagem metafórica caracteriza-se pela rigorosa disciplina e pela concisão, visíveis na brevidade das composições, quase sempre apoiadas no esquema recorrente das rimas. O signo estrelas é metáfora de bondade e de amor. No poema abaixo, intitulado Transeuntes, o efêmero e o eterno cruzam-se numa rede de sentidos. Os versos do poema apresentam uma atitude inquieta do eu poético, que anseia por atingir o mundo transcendente: 

Transeuntes 
da vida provisória: 
que rumor de asas eternas 
para além das fronteiras e dos símbolos! (p. 59). 
Nos versos do poema, percebe-se que o ser humano vive uma vida provisória, ou seja, o texto trata da brevidade da vida. O sujeito poético alicerça a construção de uma lírica, através de um eu que se caracteriza pelo desejo de realizações e buscas. As imagens e símbolos, na poesia kolodyana, apontam para o caráter transitório da vida e também para o plano espiritual. Nesse sentido, Durand assevera que "o símbolo, no seu dinamismo instaurador em busca de sentido, constitui o próprio modelo da mediação do Eterno no temporal"7. 
O poema Viagem infinita expressa a condição do homem peregrino em permanente viagem. O eu-lírico declara: 

Estou sempre em viagem. 

O mundo é a paisagem 
que me atinge 
de passagem (p. 39). 
O poema apresenta uma linguagem condensada, característica essencial da poesia kolodyana. A rima é também um dos recursos fundamentais em sua poesia, justamente pelo poder de suscitar inesperadas alianças de termos, de sentidos. Não se trata apenas da sonoridade, musicalidade, mas o que está em jogo é a estrita relação entre som e sentido. O estar em viagem aponta para a condição itinerante do ser humano. Para Chevalier & Gheerbrant, a viagem simboliza a busca da verdade, da paz, da imortalidade, da procura e da descoberta de um centro espiritual8. Se a viagem infinita representa a busca do plano transcendente, o mundo apresenta-se como uma morada transitória dos homens, pois ele é só uma paisagem que atinge o sujeito lírico de passagem. 
O haicai intitulado Depois aponta para a relação do homem com a natureza. O momento presente inquieta o eu-lírico que sabe de sua situação enquanto viajante das galáxias, ao afirmar: 

Será sempre agora. 
Viajarei pelas galáxias 
universo afora (p. 26). 
Na poesia de Helena Kolody, a temática da solidão, relacionada à questão da vida e da morte, é recorrente. A autora expressa sua maneira de ver o mundo e, ao mesmo tempo, realiza uma poesia enquanto busca de sentido existencial e resistência. No poema Ensaio, os signos vida e morte apontam para a solidão. Em três versos, com uma linguagem lúdica, o sujeito poético afirma: 

A solidão da vida, 
Longo ensaio 
Da solidão da morte (p. 156). 
Nos versos do poema, a vida e a morte se fundem numa rede de sentidos. A solidão da vida parece ser somente um ensaio, para a grande solidão de cada ser humano. Nesse sentido, a poesia é capaz de comunicar uma profunda consciência do sentido da vida e seus mistérios, pois como diz Octavio Paz, "vida e morte são apenas dois movimentos, antagônicos mas complementares, de uma mesma realidade"11. No poema Argila iluminada, a morte aparece como sinônimo de libertação. A temática da transitoriedade e da brevidade da vida ficam evidentes na passagem: 

Somos o eterno 
aprisionado 
na argila perecível. 

Inábeis equilibramos 
o intemporal no precário. 

Só a morte nos liberta (p. 76).