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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

PESSOA:" a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. .."





Escritor português, nasceu a 13 de Junho, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitimado pela tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo, no Liceu de Durban, os estudos secundários.
Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.
De regresso definitivo a Lisboa, em 1905, frequentou, por um período breve (1906-1907), o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma tipografia e editora, «Empresa Íbis — Tipográfica e Editora», dedicou-se, a partir de 1908, e a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de várias casas comerciais, sendo o restante tempo dedicado à escrita e ao estudo de filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e literatura moderna, que assim acrescentava à sua formação cultural anglo-saxónica, determinante na sua personalidade.
Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.

Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1913 a publicação de «Impressões do Crepúsculo» (poema tomado como exemplo de uma nova corrente, o paúlismo, designação advinda da primeira palavra do poema) e de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.
Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista Orpheu, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, Opiário e Ode Triunfal, de Campos, e O Marinheiro, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa ortónimo, e a Ode Marítima, de Campos. Publicou, ainda em vida, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com Mensagem a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Exílio (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou O Banqueiro Anarquista, conto de raciocínio e dedução, e o poema Mar Português), Athena (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e Presença.

A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Entre estes, contam-se a organização dos volumes poéticos de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas Dramáticos (de Fernando Pessoa), Poemas (de Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de Campos), Odes (de Ricardo Reis), Poesias Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes), Quadras ao Gosto Popular (de Fernando Pessoa), e os textos de prosa de Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos Filosóficos, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego por Bernardo Soares e uma série de outros textos.

A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.
Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado.





13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 - Aparece "Mensagem", seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.

ÁLVARO DE CAMPOS


Álvaro de Campos surge quando Fernando Pessoa sente “um impulso para escrever”. O próprio Pessoa considera que Campos se encontra no «extremo oposto, inteiramente oposto, a Ricardo Reis”, apesar de ser como este um discípulo de Caeiro.
Campos é o “filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte. O eu do poeta tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir.
Este heterónimo aprende de Caeiro a urgência de sentir, mas não lhe basta a «sensação das coisas como são»: procura a totalização das sensações e das percepções conforme as sente, ou como ele próprio afirma “sentir tudo de todas as maneiras”.
Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos é configurado “biograficamente” por Pessoa como vanguardista e cosmopolita, espelhando-se este seu perfil particularmente nos poemas em que exalta, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso.
Cantor do mundo moderno, o poeta procura incessantemente “sentir tudo de todas as maneiras”, seja a força explosiva dos mecanismos, seja a velocidade, seja o próprio desejo de partir. “Poeta da modernidade”, Campos tanto celebra, em poemas de estilo torrencial, amplo, delirante e até violento, a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino, adoptando sempre o ponto de vista do homem da cidade.


     (Depois de ler seu drama estático "O marinheiro" em "Orfeu I")

       Depois de doze minutos 
       Do seu drama O Marinheiro, 
       Em que os mais ágeis e astutos 
       Se sentem com sono e brutos, 
       E de sentido nem cheiro, 
       Diz rima das veladoras 
       Com langorosa magia 
       De eterno e belo há apenas o sonho. 
       Por que estamos nós falando ainda?                                           Ora isso mesmo é que eu ia 
                                         Perguntar a essas senhoras...  

Ricardo Reis


Para o nascimento de Ricardo Reis, quer na mente do poeta, quer na sua “vida real”, Fernando Pessoa estabelece datas distintas. Primeiro afirma, de acordo com o texto de Páginas Íntimas e de Auto- Interpretação (p.385) que este nasce no seu espírito no dia 29 de Janeiro de 1914: «O Dr.Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, que se ia desenvolvendo.». Mais tarde, numa carta a Adolfo Casais Monteiro datada de 13 de janeiro de 1935, altera a data deste nascimento afirmando que Ricardo Reis nascera no seu espírito em 1912. Fernando Pessoa considera que este heterónimo foi o primeiro a revelar-se-lhe, ainda que não tenha sido o primeiro a iniciar a sua actividade literária. Se Ricardo Reis está latente desde o ano de 1912, a julgar pela carta mencionada, é só em Março de 1914 que o autor das Odes inicia a sua produção, desde então continuada e intensa, e sempre coerente e inalterável, até 13 de Dezembro de 1933. Também no que respeita à biografia de Ricardo Reis,Fernando Pessoa apresenta dados distintos. No horóscopo que dele fez, situa o seu nascimento em 19 de Setembro de 1887 em Lisboa às 4.05 da tarde. Na referida carta a Adolfo Casais Monteiro altera a cidade natal de Ricardo Reis de Lisboa para o Porto.

Médico de profissão, monárquico, facto que o levou a viver emigrado alguns anos no Brasil, educado num colégio de jesuítas, recebeu, pois, uma formação clássica e latinista e foi imbuído de princípios conservadores, elementos que são transportados para a sua concepção poética. Domina a forma dos poetas latinos e proclama a disciplina na construção poética. Ricardo Reis é marcado por uma profunda simplicidade da concepção da vida, por uma intensa serenidade na aceitação da relatividade de todas as coisas. É o heterónimo que mais se aproxima do criador...

A flor que és, não a que dás, eu quero.

Porque me negas o que te não peço.

Tempo há para negares

Depois de teres dado.

Flor, sê-me flor!

Se te colher avaro

A mão da infausta esfinge, tu perere

Sombra errarás absurda,

Buscando o que não deste.


ALBERTO CAEIRO – O MESTRE INGÉNUO

        "Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso."
        Pessoa cria uma biografia para Caeiro que se encaixa com perfeição na sua poesia, como podemos observar nos 49 poemas da série O Guardador de Rebanhos. Segundo Pessoa, foram escritos na noite de 8 de Março de 1914, de um só fôlego, sem interrupções. Esse processo criativo espontâneo traduz exactamente a busca fundamental de Alberto Caeiro: completa  naturalidade.
       “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
         Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
         Mas porque a amo, e amo-a por isso,
         Porque quem ama nunca sabe o que ama
         Nem por que ama, nem o que é amar...”

PESSOA E SEUS HETERÔNIMOS

  Mais do que meros pseudônimos, outros nomes com os quais um autor assina sua obra, os heterônimos são invenções de personagens completos, que têm uma biografia própria, estilos literários diferenciados, e que produzem uma obra paralela à do seu criador. Fernando Pessoa criou várias dessas personagens. Três deles foram excelentes poetas e seus poemas estão nesta antologia, lado a lado com os que Pessoa assinava com seu próprio nome. Os estudiosos seguem discutindo por que Pessoa teria criado seus heterônimos. Seria esquizofrenia? Psicografia? Uma grande piada? Um genial jogo de marketing poético? De certo, sabemos que a genialidade de Fernando Pessoa é grande demais para caber em um só poeta. Como bem o sintetizou o seu heterônimo mais atribulado, Álvaro de Campos:
  •  
      "Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas, 
      Quanto mais personalidades eu tiver, 
      Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver, 
      Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas, 
      Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento, 
      Estiver, sentir, viver, for, 
      Mais possuirei a existência total do universo, 
      Mais completo serei pelo espaço inteiro fora."
       

        Além disso, Fernando Pessoa viveu durante os primórdios do Modernismo, uma época em que a arte se fragmentava em várias tendências simultâneas, as chamadas Vanguardas: Futurismo, Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo, Surrealismo e muitas outras. 
        A arte, no momento da explosão das inúmeras vanguardas modernistas por todo 
o mundo, também se dividia e se multiplicava. Fernando Pessoa, introdutor das 
vanguardas modernistas em Portugal, ao se dividir, levou a fragmentação da 
arte moderna às últimas conseqüências. 

Fonte: Google

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O FLUXO DA CONSCIÊNCIA - Virgínia Woolf

Virgínia Woolf - uma faixa de passeio sobre um abismo.

(1920)
Segunda, 25 de Outubro (primeiro dia da hora de Inverno)


Porque será a vida tão trágica?, tão semelhante a uma pequena faixa de passeio sobre um abismo. Olho para baixo; sinto vertigens; não sei se vou conseguir caminhar até ao fim. Mas porque sentirei eu isto? Agora que o digo já não o sinto. Tenho a lareira acesa, vamos àBeggar’s Opera. Só que isto paira em mim; não posso fechar os olhos a isto. É uma sensação de impotência: a sensação de não estar a realizar nada. Aqui estou eu, em Richmond, e, como uma lanterna no meio de um campo, a minha luz esfuma-se na escuridão. A melancolia diminui à medida que vou escrevendo. Então porque não escrevo eu mais vezes sobre isto? Bom, a vaidade proíbe-mo. Quero ser um êxito até aos meus próprios olhos. Contudo, este não é o fulcro da questão. É que não tenho filhos, vivo afastada dos amigos, não consigo escrever bem, gasto muito dinheiro em comida, envelheço – dou demasiada importância aos quês e porquês; dou demasiada importância a mim mesma. Não gosto que o tempo esmoreça. Se assim é, então trabalha. Pois é, mas o trabalho cansa-me logo – só posso ler um bocadinho, uma hora a escrever e já não posso mais. Ninguém vem para aqui entreter-se um bocado. Se isso acontece, zango-me. Ir a Londres é um esforço enorme. Os filhos da Nessa crescem e não posso tê-los cá para o lanche, nem levá-los ao Jardim Zoológico. O dinheiro para os meus alfinetes não dá para muito. Contudo, tenho a certeza de que estas coisas são triviais: é a própria vida, penso eu por vezes, que é assim tão trágica para esta nossa geração – não há um cabeçalho de jornal que não tenha um grito de agonia de alguém. Esta tarde foi o MeSwiney, e a violência na Irlanda; ou então é uma greve. Há infelicidade em todo o lado; está mesmo atrás da porta; ou há estupidez, o que é pior. Mesmo assim, não consigo arrancar este espinho. Sinto que voltar a escrever o Jacob’s Room me vai fazer recuperar a fibra. Acabei o Evelyn: mas não gosto do que escrevo agora. E apesar de tudo isto como sou feliz – se não fosse esta sensação de haver uma faixa de passeio sobre um abismo
.

Frases de Virginia Woolf - Imagens de Vladimir Clavijo Telepnev


Cada um de nós traz consigo o seu passado,
como as folhas de um livro que conhecemos de cor,
mas que os amigos só conseguem ler o título.



Virgínia Woolf

O poeta nos dá sua essência, mas a prosa pega o molde do corpo e da mente.


Biografia de Virginia Woolf
Virgínia Woolf, uma das mais importantes escritoras inglesas, nasceu em Londres em 1882, terceira filha de Sir Leslie Stephen, historiador e biógrafo, e de Júlia Duckworth. Com a morte da mãe, em 1895, Virgínia apresenta os primeiros sinais de depressão seguida por uma crise mental séria , que a acompanharia ao longo de sua vida. Acessos recorrentes de loucura atormentaram tanto a sua infância quanto a sua vida de casada. Porém, não minou a sua sensibilidade, criatividade e amor as artes.
Em 1904, com a morte do pai, os irmãos se transferem de Hyde Park Gate para Bloomsbury, onde se criou o famoso Bloomsbury Group, constituído de intelectuais, escritores e artistas, que se reunia as quinta-feiras na casa dos Stephen para discutir questões relacionadas com a arte e a cultura da época.
Em 28 de Março de 1941, ao perceber que seria minada por outra crise de depressão, Virgínia escreve para Leonard, seu esposo e para sua irmã Vanessa (seu irmão havia desaparecido) e se suicida, colocando várias pedras pesadas no bolso da roupa e se lança no Rio Ouse, próximo a sua casa em Rodmell, Susse.
Uma mulher a frente do seu tempo, e que ousou, mesmo com todas as limitações que a vida lhe impôs psicologicamente e como mulher, a se superar...
Seus Livros:
A Viagem (1917 - The Voyage Out)
Noite e Dia (1919 - Night and Day)
O Quarto de Jacob (1922 - Jacob's Room)
Sra. Dalloway (1925 - Mrs. Dalloway)
Ao Farol (1927 - To The Lighthouse)
Orlando (1928)
As Ondas (1931 - The Waves)
Os Anos (1937 - The Years)
...e outros escritos em Jornais da sua época.
(resumo recolhido no livro ORLANDO - Virgínia Woolf)

terça-feira, 5 de julho de 2011

"Poesia, a arte do encontro",

Dias 1 a 3 de julho, no Hotel Estância Santa Paula, acontece o  'V Festival Internacional de Poesia',
na cidade paulista de Dois Córregos-- capital brasileira da Poesia --, idealizado pelo poeta e empresário, José Eduardo Mendes Camargo, desde 2007, este ano tem como objetivo disseminar a criação poética entre poetas, escritores, educadores, estudantes e pessoas interessadas no assunto.
Neste ano o evento será aberto pelos Doutores da Alegria que desde a década de 90 trabalham em conjunto com profissionais de saúde para auxiliar na rápida recuperação de crianças hospitalizadas, com a palestra/espetáculo
 “Profissão Palhaço”. .
Entre os palestrantes os poetas Paulo Netho e José Ricardo Grilo; o poeta, ensaísta e cronista Affonso Romano de Sant´Anna; a escritora, jornalista e pintora Marina Colasanti; a poetisa, cronista, tradutora e compositora Flora Figueiredo; o escritor e poeta Luiz Coronel; o poeta Saldanha Legendre, além dos poetas Carlos Vásquez Tamayo, da Colômbia, Alfredo Fressia, do Uruguai e a poetisa portuguesa, Ana Vieira.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Pensamentos, Citações, Reflexões, Frases por Isabel Allende





Isabel Allende 

é uma escritora chilena que vale a pena conhecer...

...desde A Casa dos Espíritos em 1982, que me despertou a sua escrita! Mas foi com o seu testemunho no livro Paula, onde nos conta a longa caminhada da sua vida até à morte da sua filha, como um acontecimento duro mas ao mesmo tempo natural de uma forma incrivelmente humana.
A Soma Dos Dias é o seu último livro que espero que me faça "crescer" mais um bocadinho como ser humano!

Biografia Isabel Allende


Isabel Allende Llona (Lima2 de Agosto de 1942) é uma jornalista e escritora chilena. Apesar de ter nascido em Lima, sua família logo voltou para o Chile, sua terra natal. Atualmente está radicada nos Estados Unidos da América.
É filha de Tomás Allende, funcionário diplomático e primo irmão de Salvador Allende, e de Francisca Llona.
Isabel é considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980. Sua obra é marcada pela ditadura no Chile, implantada com o golpe militar que em 1973 derrubou o governo do primo de seu pai, o presidente Salvador Allende (1908-1973).
Escreveu A casa dos espíritos (1982) e ganhou reconhecimento de público e crítica. A obra foi filmada em 1993 por Bille August, com Jeremy Irons e Meryl Streep. Em 1995 lançou o livro Paula, que a autora escreveu para a sua filha que estava em coma devido a um ataque de porfiria. Como a autora não sabia se a sua memória voltaria após a saída do coma, Isabel Allende resolveu contar a sua história para auxiliar a filha a lembrar dos fatos. Paula passou a ser então um retrato auto-biográfico. Sua filha não voltou do coma e morreu um tempo depois.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Al Berto - Prefácio para um livro de poemas

Conheci 

um homem que possuía uma cabeça de vidro.Víamos 
-pelo lado menos sombrio do pensamento- todo o sistema 
planetário.Víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das 
emoções na ponta dos dedos.O latejar do tempo na humidade 
dos lábios.E a insónia ,com seus anéis de luas 
quebradas e espermas ressequidos.As estrelas mortas das 
cidades imaginadas.Os ossos (tristes) das 
palavras.A noite cerca a mão inteligente do homem que possui 
uma cabeça transparente.Em redor dele 
chove.Podemos adivinhar um chuva 
espessa,negra,plúmbea.Depois, o homem abre a mão, uma laranja 
surge,esvoaça.As cidades(como em todos os livros que li) 
ardem.Incêndios que destroem o último coração do sonho.Mas 
aquele que se veste com a pele porosa da sua própria 
escrita olha,absorto,a laranja.A queda da laranja 
provocará o poema?A laranja voadora é ,ou não é,uma 
laranja imaginada por um louco?E um louco,saberá o 
que é uma laranja?E se a laranja cair?E o poema? 
E o poema com uma laranja a cair?E o poema em 
forma de laranja?E se eu comer a laranja,estarei a 
devorar o poema?A ficar louco?(...)E a palavra 
laranja existirá sem a laranja?E a laranja voará sem 
a palavra laranja?E se a laranja se iluminar a 
partir do seu centro, do seu gomo mais secreto,e alguém 
a (esquecer) no meio da noite-servirá(o brilho)da 
laranja para iluminar as cidades há muito mortas?E se 
a laranja se deslocar no espaço-mais depressa que o 
pensamento, e muito mais devagar que a laranja escrita-criará 
uma ordem ou um caos?O homem que possui uma 
cabeça de vidro habita o lado de fora das muralhas da 
cidade.Foi escorraçado.(E)na desolação das terras,noite 
dentro,vigia os seus próprios sonhos e pesadelos.Os seus 
próprios gestos-e um rosto suspenso na 
solidão.Onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua 
alma,no seu sexo,no seu coração?E se escreveu laranja 
na alma,a alma ficará saborosa?E se escreveu 
laranja no coração,a paixão impedi-lo-á de morrer?E 
se escreveu laranja no sexo, o desejo 
aumentará?Onde está a vida do homem que escreve, a vida da 
laranja,a vida do poema-a Vida,sem mais nada-estará 
aqui?Fora das muralhas da cidade?No interior do meu 
corpo? ou muito longe de mim-onde sei que possuo uma 
outra razão...e me suicido na tentativa de me 
transformar em poema e poder,enfim,circular 

Há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida 
pensava eu... como seriam felizes as mulheres 
à beira mar debruçadas para a luz caiada 
remendando o pano das velas espiando o mar 
e a longitude do amor embarcado 

por vezes 
uma gaivota pousava nas águas 
outras era o sol que cegava 
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite 
os dias lentíssimos... sem ninguém 

e nunca me disseram o nome daquele oceano 
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas 
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua 
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar 
se espantasse com a minha solidão 

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.) 

um dia houve 
que nunca mais avistei cidades crepusculares 
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta 
inclino-me de novo para o pano deste século 
recomeço a bordar ou a dormir 
tanto faz 
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Eremitério

mais nada se move em cima do papel 

nenhum olho de tinta iridescente pressagia 

o destino deste corpo 

os dedos cintilam no húmus da terra 

e eu 

indiferente à sonolência da língua 

ouço o eco do amor há muito soterrado 

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço 

no interior dessa ânfora alucinada 

desço com a lentidão ruiva das feras 

ao nervo onde a boca procura o sul 

e os lugares dantes povoados 

ah meu amigo 

demoraste tanto a voltar dessa viagem 

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas 

inundou o corpo quebrado pela serena desilusão 

assim me habituei a morrer sem ti 

com uma esferográfica cravada no coração 

Dizem que a paixão o conheceu

dizem que a paixão o conheceu 
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros 
senta-se no estremecer da noite enumera 
o que lhe sobejou do adolescente rosto 
turvo pela ligeira náusea da velhice 

conhece a solidão de quem permanece acordado 
quase sempre estendido ao lado do sono 
pressente o suave esvoaçar da idade 
ergue-se para o espelho 
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo 

dizem que vive na transparência do sonho 
à beira-mar envelheceu vagarosamente 
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria 
nenhum ofício cantante 
o tenha convencido a permanecer entre os vivos